21 janeiro 2007

TUNA2 x 1AGUIA ,IGNACIO SALVOU NOVAMENTE

Inácio sofre no gol por prazer. E garante não se arrepender do que faz.

Quem já ouviu a máxima de Neném Prancha segundo a qual 'goleiro é uma posição tão amaldiçoada, que onde ele pisa não nasce grama', precisa conhecer Inácio de Lima Uchoa, de 34 anos, para ver que o 'filósofo da bola' tinha razão. Inácio ganha a vida jogando futebol desde 1992. Atualmente ele é titular do gol da Tuna. Mas antes passou por outros dez clubes locais, todos de porte médio. Casado com a senhora Neize Lima e pai do garoto Inácio Neto, de seis meses, o goleiro faz das tripas coração para não abandonar o mundo da bola. Inácio chega a poupar parte do salário que ganha - R$ 1.200,00 - para sobreviver nos períodos em que fica sem clube.

Como foi o início de sua carreira?

Comecei jogando futebol de salão. Fui disputar um Campeonato Brasileiro no Piauí e um dirigente do Onix, um clube de lá, me viu jogando e me convidou para disputar futebol de campo. Fiz o teste e fui aprovado. Mas como estava estudando naquela época não deu para ficar. Na volta, motivado por ter ido bem no teste no clube piauiense, decidi tentar a sorte no Paysandu. Passei algum tempo na Curuzu, mas como as chances não apareciam resolvi me transferir para o Independente, onde fiquei dois anos. A partir daí comecei a rodar por vários clubes pequenos até chegar aqui na Tuna Luso.

Como você faz para sobreviver jogando apenas em equipes pequenas?

Quando estou em atividade, como agora, procuro sempre ir guardado um dinheiro para usar quando estou sem clube. Não dá para guardar muita coisa já que o salário que ganho não é lá muita coisa. Com esse dinheiro da poupança sobrevivo até a chegada de um novo convite e o início de uma outra competição. Costumo ficar parado, no máximo, três meses durante um ano.

Durante a sua carreira você já foi obrigado a dividir o futebol com outra atividade?

Não. Sempre me dediquei exclusivamente ao futebol. Nunca fui obrigado a ter de trabalhar em outra atividade, mesmo ganhando um salário pequeno em comparação com o que ganham os goleiros de grandes clubes. Como disse, fico apenas três meses sem clube, mas logo depois consigo emprego e aí volto a fazer aquilo que mais gosto, que é jogar futebol, a carreira que escolhi para seguir na minha vida.

Durante esse tempo jogando por equipe pequenas nunca apareceu convite de Remo e Paysandu?

Já cheguei a treinar no Paysandu. Na época o treinador era o Tatá. Ele gostou do meu futebol e pediu a minha contratação. Mas eram o tempo em que existia o passe e eu estava vinculado ao Independente, que pediu uma grana para liberar a minha documentação. O Paysandu não concordou e, com isso, acabei perdendo a chance de jogar em um grande clube. Lamentei, já que era uma grande chance sem dúvida.

Você já chegou a pensar em parar em função da falta de oportunidades?

Com toda a certeza. Desde que decidi jogar futebol profissional sempre sonhei em jogar em um grande clube. Como essa chance não se concretizou, decidi seguir minha vida defendendo equipes pequenas. Mas sei que não vou ter o que fazer após encerrar a carreira, já que não vai dar para viver do salário que estou ganhando hoje. Por isso no ano passado resolvi fazer um curso de segurança no trabalho. Quando pendurar as chuteiras e abandonar as luvas já tenho o que fazer na vida para sustentar a minha família. No ano passado mesmo pensei em parar. Só que surgiu o convite do técnico Carlos Lucena (da Tuna Luso) e eu acabei aceitando.

Você se considera um goleiro injustiçado?

Não sei se posso dizer que fui injustiçado. Sei que no futebol paraense é sempre muito difícil um goleiro local ter vez. Mesmo quem consegue mostrar alguma coisa, como é o meu caso. São contados os goleiros que tem vez em Remo e Paysandu. Os dirigentes preferem apostar na contratação de goleiros de fora. Dá para contar nos dedos aqueles goleiros locais que jogaram nesses dois clubes nos últimos anos. Que eu lembre só o Ronaldo e o Ivair.

O que você ganhou até hoje no futebol foi só para sobreviver?

Foi. Não deu para fazer o ‘pé de meia’ como se diz no futebol. Só deu para sobreviver. Mas desde o início da minha carreira nunca pensei em ganhar dinheiro com o futebol. Sempre me achei um goleiro de baixa estatura (1,75) e achava que por isso não daria muito certo na profissão. Mas o tempo foi passando e eu percebi que dava para superar essa questão da altura com outras qualidades.

Você já sabe para onde vai depois do Parazão?

Não. Tenho contrato de um ano com a Tuna. Estamos apostando que nossa equipe vai garantir uma vaga no Campeonato Brasileiro da Série C. Se isso acontecer não vou ter tanta preocupação em procurar clube. Mas pode ser também que a Tuna me libere para outro clube, caso a gente não consiga a classificação para o Nacional.

Com tantas dificuldades você se arrepende de ter escolhido a carreira de jogador para seguir?

De forma alguma. Gosto do que faço, apesar das dificuldades. Me sinto realizado. Sempre acredito que vai surgir uma proposta mais interessante. Cada ano é uma nova esperança. Acho que vou encerrar a minha carreira pensando assim. Esse talvez seja um dos motivos que me incentiva a continuar jogando futebol.

Com 34 anos, ainda dá para sonhar em jogar em um grande clube?

Não sei não, mas com essa idade o jogador está mais experiente. Ainda mais um goleiro. Brincadeira à parte, tenho consciência de que estou chegando ao fim da carreira, mas me sinto um vitorioso. Só pretendo jogar, no máximo, mais uns dois aos. Depois vou me dedicar a outra atividade. Não pretendo continuar no futebol. O futebol será apenas lazer para mim.O Liberal

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