Abner Luís Especial para o Amazônia Hoje
Minutos antes da classificação da Tuna Luso à final do primeiro turno do Campeonato Paraense, uma conversa informal entre o técnico Carlos Alberto Lucena e o colunista do Amazônia Hoje Abner Luiz acabou virando esta entrevista, onde o treinador revela um pouco da rotina de dificuldades que é comandar uma terceira força no futebol do Estado.
Lucena fala do tratamento que ele considera desprestigioso que a Tuna sofre e dos dias que antecederam ao jogo com o Remo. Para o treinador, o pedido azulino de realização de exame antidoping na semifinal tinha um alvo específico, o meia Arinelson, que de fato teve problemas semelhantes em anos anteriores.
O técnico revela ainda que não tinha preferência quanto ao adversário para a final do dia 25, garantindo que para ele a Tuna já era campeã por ter conseguido, com um elenco basicamente formado por garotos, chegar mais longe do que muitos acreditavam. Veja a entrevista:
Você agitou o clássico contra o Remo dizendo que a Tuna era pobre e o Leão, poderoso. Por quê?
O Remo pode contratar os jogadores que o Giba pedir, eu não posso contratar. Eles têm uma folha que é cinco vezes maior do que a nossa. Segundo escreveram por aí, eu ganho 1% do salário do Giba. Levaram meus atacantes Beá e Élcio por terem mais dinheiro; nossa realidade é bem diferente. Nós não investimos, apenas juntamos o que tínhamos, pegamos um daqui e outro dali e montamos o time. Claro que a base é a garotada do clube.
O que você quer é mexer com os brios dos adversários?
Não, se não eles vêm mais fortes. O que quero é mostrar para meus jogadores que no jogo contra o Remo nós éramos os intrusos da noite. Ninguém queria a gente na final. Eu coloquei no vestiário uma foto imensa, da capa de um jornal, que não é esse aqui (Amazônia Hoje), com o Giba matando a bola no peito. A imprensa naquele dia deu destaque imenso para o Remo, falou do Paysandu, que jogaria no outro dia, e deu uma notinha da Tuna. Também coloquei isso na parede, fiz ver que só eles (jogadores) poderiam fazer a Tuna no outro dia destaque. E fizemos isso.
A especulação sobre o seu baixo salário o incomoda?
Já li que eu ganhava R$ 400,00 por mês. Isso não é verdade, ganho muito bem na Tuna e até os salários do ano passado a diretoria já me pagou. Sobre ganhar 1% do salário do Giba, como escreveram, penso que eu dou mais lucro ao clube. Quem paga R$ 60 mil para um treinador em Belém é 'maluco'. O Giba, quando perdeu o primeiro jogo para a Tuna, disse que foi o jogo mais horrível que ele já viu. Desmereceu nossa vitória e quero dizer a ele que, para mim, aquele foi o jogo mais lindo.
Como você se define como treinador?
Tenho 50 anos de idade, já ganhei tudo nas categorias de base, revelei jogador que já jogou até Copa do Mundo... Sou um cara simples. Pago do meu bolso para amigos assistirem a jogos dos adversários, e não é nem gente envolvida com o futebol. Nos jogos de Remo e Paysandu, no Baenão e na Curuzu, eu não posso ir, aí pago o meu vizinho e ele me traz as informações que preciso. No último coletivo antes de jogar com o Remo, o Beá estava sob um jambeiro da Tuna assistindo ao nosso treino. Não me importei com isso, só penso que, ou ele não passou direito para o Giba, ou o treinador do Remo não conseguiu compreender (risos). Agora, como não falo bonito, não visto paletó, não ganho R$ 60 mil, tem gente que não acredita na minha competência.
Você consegue o que poucos conseguiram... vai para um ano de Tuna, é isso?
Uma coisa que ninguém fala é que faço um ano como treinador da Tuna, algo quase impossível em Remo e Paysandu. Neste ano, passei dificuldades aqui. Lembro que com dez meses de salários atrasados entrava em campo para trabalhar e dizia para os meus jogadores que não era para ninguém reclamar, pois Deus ainda iria se manifestar. Estamos na final. Na Série C, descia tonto do ônibus depois de tanto tempo de viagem. Fomos até matéria nacional, como um time sem estrutura rompendo fronteiras para jogar a Série C.
Com a Tuna até quando?
Até quando a Tuna me quiser. Quando cheguei aqui sabia que se perdesse dois jogos seguidos seria mandado embora. Sempre digo para os meus jogadores que ninguém fica rico jogando na Tuna, mas já vi muita gente sair daqui para ganhar muito dinheiro e ficar muito famoso.
Você ainda pensa que o Campeonato Paraense é feito para Remo e Paysandu?
Claro que é. A Tuna jogou no campo do Pedreira, em Abaetetuba e em Bragança. A Federação não fez o mesmo com Remo e Paysandu. O Paysandu foi somente em Castanhal. Até na arbitragem eles são favorecidos. No jogo Remo x Águia escalaram um juiz que não apitava havia um tempão e o cara deu até penalti que não aconteceu. O Domingão (o árbitro Domingos de Jesus Viana Filho) tirou dois jogadores da Tuna da decisão e deu cartão por reclamação. Não deu pênalti numa falta criminosa do Xavier. A Tuna tem que ganhar tudo e todos.
Paysandu ou Ananindeua na final?
Já sou campeão! Com esse investimento, com um time pobre... Por sinal, teve um comentarista que disse antes do jogo com o Remo que a Tuna já tinha batido com a cabeça no teto, e que um cara da rádio dele, de 500 quilos, fazia gol na Tuna. Nosso time não perde há nove jogos e estamos fazendo apenas o feijão-com-arroz. Mas temos qualidades.
Sem Márcio Belém e Marcelo Lemos dá para ser campeão?
Dá sim, tenho o Arinelson, que eu trouxe de volta. Por sinal, fiquei sabendo que o Giba pediu o exame antidoping porque falaram para ele que o Arinelson se dopava. Eu tenho o meia que nem Remo nem Paysandu tem. Ele (Arinelson) entrou no jogo e mostrou experiência e que tem muito futebol e vai jogar a final. Não somos favoritos, continuamos apenas entrando em campo e saindo felizes. Que seja assim na final!
As premiações por jogo estão contribuindo muito para as vitórias?
Tem um gringo belga aqui que chamo ele de 'gringo iluminado'. Ele apareceu aqui, gosta do nosso trabalho, oferece dinheiro de premiação e no jogo passado pagou R$ 5 mil de premiação. No ano passado, ele também me pagava uma parte do salário e mais outros empresários também colaboravam. Eu tinha que ir em vários endereços para completar meu pagamento. Hoje a coisa é diferente, até ganhei aumento. Eu chamo o gringo de gringo iluminado e ele me chama de treinador milagroso (risos).
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