Lucena Técnico dedura o que há de pior no futebol do Pará: a desorganização Sem papas na língua, o técnico da Tuna Luso, Carlos Alberto Lucena, de 50 anos, não pensa duas vezes ao apontar os dirigentes como responsáveis pelas dificuldades enfrentadas pelo futebol paraense. Para ele, os nossos clubes não têm organização e esbajam dinheiro que, muitas das vezes, nem possuem. 'Os clubes fazem dívidas, mesmo sabendo que terão dificuldade para pagá-las lá na frente', diz. Para ele, que é casado e pai de três filhos, um deles o lateral tunante Cassiá, os clubes de uns anos para cá têm importado jogadores e treinadores em excesso. E o pior, segundo ele, 'profissionais quase sempre de qualidade duvidosa.' Lucena salienta que Remo e Paysandu, clubes de maior apelo popular, não investem como deveriam na revelação de jogadores. 'Isso só não vê quem não quer ou é cego', afirma. Segundo o treinador, o afastamento do torcedor dos estádios tem uma explicação: a falta de craques nas equipes. Confira a entrevista do treinador que se considera o verdadeiro 'Rei do Acesso'. Em sua opnião qual o grande problema para que o futebol paraense não decole de vez e se iguale a grandes centros? O que nos falta é organização. Veja o caso de Remo e Paysandu, que são os clubes que contam com as maiores torcidas. Todo os anos eles importam pencas de jogadores, grande parte de deles de qualidade duvidosa. Esses jogadores chegam aqui, muitas das vezes não conseguem render nada e só deixam prejuízos financeiros aos clubes. Se dessem uma atenção melhor às suas divisões, com toda a certeza, esses clubes estariam hoje em situação financeira bem melhores, já que poderiam formar grandes equipes, com um ou dois bons jogadores importados, e ainda vender atletas para outras equipes nacionais ou de fora do exterior. Um outro problema é que nosso clubes, todos eles, ainda vivem de rendas, como era há 15, 20 anos. Eles não buscam outras alternativas de arrecadação, como por exemplo os patrocinadores, já que o futebol continua sendo o esporte mais praticado e assistido no País. Para confirmar o que digo, posso citar só um exemplo: o São Caetano. Lá em São Paulo esse time joga com meia dúzia de torcedores nas arquibancadas e, no entanto, tem patrocinadores fortes, que ajudam decisivamente na manutenção do clube. Ninguém ouve falar de salários atrasados no São Caetano, bem diferente da nossa realidade, onde nossos principais clubes convivem com problemas na Justiça do Trabalho. Você acredita que o que é arrecadado pelos clubes paraenses é mal gerenciado? Claro que sim. Se nossos clubes trabalhassem com os pés no chão, mas com a meta de se tornarem grandes, com toda a certeza esse dinheiro seria muito melhor investido. Onde já se viu, por exemplo, clubes daqui em condições de pagar salários de R$ 50 mil, R$ 60 mil a um treinador. Isso não existe. Neste momento o futebol paraense, que não dispõe de uma infra-estrutura pelos motivos que já disse, não tem as mínimas condições de pagar salários tão altos a treinadores importados. No entanto isso acontece todos os anos. E o pior é que esses treinadores que são importados agora deram para trazer preparador físico, auxiliar-técnico, preparador de goleiros e tudo mais. Isso acontece nos grandes clubes. É normal. Mas lá eles podem pagar, já que contam com patrocinadores fortes. Não falo isso por ser um treinador local. Nada disso, já que também sonho em trabalhar fora do futebol paraense. Falo isso por viver a nossa realidade. Aliás, essa importação desenfreada também atinge jogadores, que ganham salários de R$ 25 mil, R$ 30 mil e até mais. Como pagar salários tão altos se os clubes não tem fontes de receita para bancar isso? O resultado são as dívidas que vão se acumulando e impedindo o crescimento dos clubes. Nessa questão da política de pés no chão a Tuna, na sua avaliação, poderia servir de exemplo a Remo e Paysandu? Não sei bem se a Tuna poderia ser um exemplo. Falo isso em função de termos uma torcida menor que as de Remo e Paysandu. O que posso dizer é que trabalho na Tuna desde 1989 e durante esse tempo quase sempre o clube trabalhou com os pés no chão, contratando quem pode pagar. Das vezes em que seguiu a política de Remo e Paysandu, no sentido de contratações, a Tuna sempre se deu mal. Os salários aqui são bem inferiores aos que são pagos por Remo e Paysandu, mas são raros os casos em que ex-funcionários do futebol levam o clube à justiça. Alguns desses abacaxis foram deixados por antigas administrações do clube. Hoje nossos salários estão em dia. É uma prova de que é preciso trabalhar e, principalmente, gastar dentro da realidade. Você acredita que a receita é apostar nas divisões de base? Isso já está mais do que claro. Só não vê quem não quer ou é cego. Agora é preciso apostar e apostar mesmo nas divisões de base. Não adianta os clubes prometerem dar apoio às divisões de base e ficar só na promessa. É preciso investir na garotada para colher os frutos lá na frente. Isso requer um pouco de tempo. Mas os nossos clubes, com exceção da Tuna Luso, e, principalmente, os torcedores não têm paciência para esperar. Qual o tratamento que os clubes dão hoje à formação de jogadores? O pior possível. A garotada muitas das vezes não tem nem onde treinar. É obrigada a treinar em campos sem condições e só tem uma, duas bolas velhas. Mesmo com todas essas dificuldades é grande o número de bons jogadores que surgem no nosso futebol. Tem jogador que aparece no interior e de lá mesmo já segue para clubes de fora do Pará. Imagine se nossos grandes clubes tivessem uma boa estrutura em sua divisões de base, quantos craques não apareceriam e renderiam títulos e dinheiro às suas equipes. Na sua opinião, o torcedor paraense está se afastando dos estádios? O paraense é um apaixonado por futebol. Todo mundo sabe disso. Até os caras lá fora. O que acontece é que os clubes têm importado uma grande quantidade de jogadores que estão longe de chegar às tradições do nosso futebol. Como disse, grande parte dos jogadores que vêm de fora não mostra nada e quando deixa o Pará leva o bolso cheio de dinheiro ou de duplicatas que mais tarde vão parar na Justiça do Trabalho. Até pouco tempo, nossos clubes, principalmente Remo e Paysandu, contratavam bons jogadores lá fora. Cada um tinha pelo menos três grandes jogadores, verdadeiros craques, o que não acontece hoje. Isso, sem dúvida, afasta o torcedor do estádio. Ninguém é bobo de pagar ingressos para ver um espetáculo sem qualidade. O dia que nossos clubes voltarem a ter grades craques, pode anotar, o futebol paraense voltará aos seus bons tempos. Você se considera mesmo o 'Rei do Acesso' ou é apenas mais uma frase de efeito sua? Claro que me considero o 'Rei do Acesso' pelo trabalho que venho desenvolvendo aqui na Tuna Luso. Em uma só temporada consegui, com a ajuda da comissão técnica e dos jogadores, tirar o time do torneio de acesso e classificá-lo para a fase principal do Parazão. Chegamos à decisão com o Remo, o que não acontecia há bastante tempo. Isso nos garantiu uma vaga na Copa do Brasil e a participação na Série C do Brasileiro com os gastos sendo bancados pela CBF. Além disso tudo, já sabemos que a Tuna tem participação garantida na fase principal do Campeonato Paraense do ano que vem. Não é pouco não. Agora compare isso tudo com o que fizeram os treinadores Paulo Roberto e Luis Carlos Martins, que chegaram aqui com a fama de 'Reis do Acesso'. O primeiro deixou o Paysandu eliminado da Série C e o Remo foi deixado lá na rabeira da Série B. É aquilo que sempre falo, o futebol é como o espiritismo. No espiritismo só quem pode ver espírito são os médiuns. No futebol tem muita gente que assiste ao jogo mas não consegue ver nada.entrevista publicada em O Liberal
12 agosto 2007
SEM PAPA NA LINGUA
Lucena Técnico dedura o que há de pior no futebol do Pará: a desorganização Sem papas na língua, o técnico da Tuna Luso, Carlos Alberto Lucena, de 50 anos, não pensa duas vezes ao apontar os dirigentes como responsáveis pelas dificuldades enfrentadas pelo futebol paraense. Para ele, os nossos clubes não têm organização e esbajam dinheiro que, muitas das vezes, nem possuem. 'Os clubes fazem dívidas, mesmo sabendo que terão dificuldade para pagá-las lá na frente', diz. Para ele, que é casado e pai de três filhos, um deles o lateral tunante Cassiá, os clubes de uns anos para cá têm importado jogadores e treinadores em excesso. E o pior, segundo ele, 'profissionais quase sempre de qualidade duvidosa.' Lucena salienta que Remo e Paysandu, clubes de maior apelo popular, não investem como deveriam na revelação de jogadores. 'Isso só não vê quem não quer ou é cego', afirma. Segundo o treinador, o afastamento do torcedor dos estádios tem uma explicação: a falta de craques nas equipes. Confira a entrevista do treinador que se considera o verdadeiro 'Rei do Acesso'. Em sua opnião qual o grande problema para que o futebol paraense não decole de vez e se iguale a grandes centros? O que nos falta é organização. Veja o caso de Remo e Paysandu, que são os clubes que contam com as maiores torcidas. Todo os anos eles importam pencas de jogadores, grande parte de deles de qualidade duvidosa. Esses jogadores chegam aqui, muitas das vezes não conseguem render nada e só deixam prejuízos financeiros aos clubes. Se dessem uma atenção melhor às suas divisões, com toda a certeza, esses clubes estariam hoje em situação financeira bem melhores, já que poderiam formar grandes equipes, com um ou dois bons jogadores importados, e ainda vender atletas para outras equipes nacionais ou de fora do exterior. Um outro problema é que nosso clubes, todos eles, ainda vivem de rendas, como era há 15, 20 anos. Eles não buscam outras alternativas de arrecadação, como por exemplo os patrocinadores, já que o futebol continua sendo o esporte mais praticado e assistido no País. Para confirmar o que digo, posso citar só um exemplo: o São Caetano. Lá em São Paulo esse time joga com meia dúzia de torcedores nas arquibancadas e, no entanto, tem patrocinadores fortes, que ajudam decisivamente na manutenção do clube. Ninguém ouve falar de salários atrasados no São Caetano, bem diferente da nossa realidade, onde nossos principais clubes convivem com problemas na Justiça do Trabalho. Você acredita que o que é arrecadado pelos clubes paraenses é mal gerenciado? Claro que sim. Se nossos clubes trabalhassem com os pés no chão, mas com a meta de se tornarem grandes, com toda a certeza esse dinheiro seria muito melhor investido. Onde já se viu, por exemplo, clubes daqui em condições de pagar salários de R$ 50 mil, R$ 60 mil a um treinador. Isso não existe. Neste momento o futebol paraense, que não dispõe de uma infra-estrutura pelos motivos que já disse, não tem as mínimas condições de pagar salários tão altos a treinadores importados. No entanto isso acontece todos os anos. E o pior é que esses treinadores que são importados agora deram para trazer preparador físico, auxiliar-técnico, preparador de goleiros e tudo mais. Isso acontece nos grandes clubes. É normal. Mas lá eles podem pagar, já que contam com patrocinadores fortes. Não falo isso por ser um treinador local. Nada disso, já que também sonho em trabalhar fora do futebol paraense. Falo isso por viver a nossa realidade. Aliás, essa importação desenfreada também atinge jogadores, que ganham salários de R$ 25 mil, R$ 30 mil e até mais. Como pagar salários tão altos se os clubes não tem fontes de receita para bancar isso? O resultado são as dívidas que vão se acumulando e impedindo o crescimento dos clubes. Nessa questão da política de pés no chão a Tuna, na sua avaliação, poderia servir de exemplo a Remo e Paysandu? Não sei bem se a Tuna poderia ser um exemplo. Falo isso em função de termos uma torcida menor que as de Remo e Paysandu. O que posso dizer é que trabalho na Tuna desde 1989 e durante esse tempo quase sempre o clube trabalhou com os pés no chão, contratando quem pode pagar. Das vezes em que seguiu a política de Remo e Paysandu, no sentido de contratações, a Tuna sempre se deu mal. Os salários aqui são bem inferiores aos que são pagos por Remo e Paysandu, mas são raros os casos em que ex-funcionários do futebol levam o clube à justiça. Alguns desses abacaxis foram deixados por antigas administrações do clube. Hoje nossos salários estão em dia. É uma prova de que é preciso trabalhar e, principalmente, gastar dentro da realidade. Você acredita que a receita é apostar nas divisões de base? Isso já está mais do que claro. Só não vê quem não quer ou é cego. Agora é preciso apostar e apostar mesmo nas divisões de base. Não adianta os clubes prometerem dar apoio às divisões de base e ficar só na promessa. É preciso investir na garotada para colher os frutos lá na frente. Isso requer um pouco de tempo. Mas os nossos clubes, com exceção da Tuna Luso, e, principalmente, os torcedores não têm paciência para esperar. Qual o tratamento que os clubes dão hoje à formação de jogadores? O pior possível. A garotada muitas das vezes não tem nem onde treinar. É obrigada a treinar em campos sem condições e só tem uma, duas bolas velhas. Mesmo com todas essas dificuldades é grande o número de bons jogadores que surgem no nosso futebol. Tem jogador que aparece no interior e de lá mesmo já segue para clubes de fora do Pará. Imagine se nossos grandes clubes tivessem uma boa estrutura em sua divisões de base, quantos craques não apareceriam e renderiam títulos e dinheiro às suas equipes. Na sua opinião, o torcedor paraense está se afastando dos estádios? O paraense é um apaixonado por futebol. Todo mundo sabe disso. Até os caras lá fora. O que acontece é que os clubes têm importado uma grande quantidade de jogadores que estão longe de chegar às tradições do nosso futebol. Como disse, grande parte dos jogadores que vêm de fora não mostra nada e quando deixa o Pará leva o bolso cheio de dinheiro ou de duplicatas que mais tarde vão parar na Justiça do Trabalho. Até pouco tempo, nossos clubes, principalmente Remo e Paysandu, contratavam bons jogadores lá fora. Cada um tinha pelo menos três grandes jogadores, verdadeiros craques, o que não acontece hoje. Isso, sem dúvida, afasta o torcedor do estádio. Ninguém é bobo de pagar ingressos para ver um espetáculo sem qualidade. O dia que nossos clubes voltarem a ter grades craques, pode anotar, o futebol paraense voltará aos seus bons tempos. Você se considera mesmo o 'Rei do Acesso' ou é apenas mais uma frase de efeito sua? Claro que me considero o 'Rei do Acesso' pelo trabalho que venho desenvolvendo aqui na Tuna Luso. Em uma só temporada consegui, com a ajuda da comissão técnica e dos jogadores, tirar o time do torneio de acesso e classificá-lo para a fase principal do Parazão. Chegamos à decisão com o Remo, o que não acontecia há bastante tempo. Isso nos garantiu uma vaga na Copa do Brasil e a participação na Série C do Brasileiro com os gastos sendo bancados pela CBF. Além disso tudo, já sabemos que a Tuna tem participação garantida na fase principal do Campeonato Paraense do ano que vem. Não é pouco não. Agora compare isso tudo com o que fizeram os treinadores Paulo Roberto e Luis Carlos Martins, que chegaram aqui com a fama de 'Reis do Acesso'. O primeiro deixou o Paysandu eliminado da Série C e o Remo foi deixado lá na rabeira da Série B. É aquilo que sempre falo, o futebol é como o espiritismo. No espiritismo só quem pode ver espírito são os médiuns. No futebol tem muita gente que assiste ao jogo mas não consegue ver nada.entrevista publicada em O Liberal
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