23 outubro 2009

À Procura de Eric



por Mauricio Stycer do IG

“À Procura de Eric”, do inglês Ken Loach, foi exibido pela primeira vez em Cannes, em maio deste ano. Não fez o mesmo sucesso de “Ventos da Liberdade”, que levou a Palma de Ouro em 2006, mas provocou sorrisos da plateia – o que deverá se repetir em São Paulo, a julgar pela recepção que teve nesta terça-feira, em sessão para jornalistas.

Eric Bishop (Steve Evets) é o carteiro em crise, atormentado pela paixão mal resolvida pela ex-mulher e dois enteados adolescentes que cria com muito esforço. Cercado de amigos, aos quais não dá ouvidos, Eric encontra refúgio apenas em seu quarto – um pequeno ambiente decorado com um pôster de Eric Cantona em tamanho natural, além de outras fotos de jogadores do Manchester.

Nascido em Marselha, Cantona atuou por várias equipes francesas e pelo Leeds, da Inglaterra, antes de se transferir para o Manchester em 1992. Com a camisa 7, se consagrou com um dos maiores jogadores da sua geração e ajudou a equipe a conquistar o Campeonato Inglês (Premier League), que não vencia desde 1967, por quatro vezes.



Também deixou uma marca pela personalidade – inteligente, rebelde, sempre falou e fez o que vinha pela cabeça. Uma vez, no Marselha, atirou a camisa do clube no chão ao ser substituído. Criticou publicamente o técnico da seleção da França, o que o afastou de convocações

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Certa vez, no Manchester, depois de ser expulso de campo, agrediu um torcedor do time adversário, que o xingou. Foi suspenso por dez meses. Por conta desta e outras confusões, acabou não participando da seleção da França na Copa de 98, sua maior frustração. Abandonou o futebol aos 31 anos.


Vários de seus 84 gols pelo Manchester são rememorados pelo carteiro Eric, até o dia em que, fumando um baseado, ele encontra o próprio Cantona em seu quarto. Com um repertório de frases de efeito e pílulas de sabedoria e auto-ajuda, o ex-jogador resolve ajudar o seu xará.

Como de hábito em seus filmes, o foco de Ken Loach é a classe trabalhadora inglesa, com seu sotaque particular, os gestos bruscos, mas carinhosos, e a paixão pela cerveja e o futebol. Cantona, de certa forma, pelo que aconteceu em sua carreira, é mais inglês do que francês, e faz todo sentido dentro deste filme (o ex-jogador, a propósito, é um dos produtores do longa).


Leve e bem-humorado, narrado em tom de fábula, “À Procura de Eric” não tem a mesma força que outras produções de Ken Loach, mas é um presente para quem gosta de futebol e aprecia a trajetória de craques rebeldes e independentes, como Cantona. Aliás, é uma feliz coincidência que a Mostra abrigue no mesmo ano o “Maradona”, de Emir Kusturica, e o “Tyson”, de James Tolback.













 




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