03 maio 2010

O Gigante Ganso

Antero Greco - O Estado de S.Paulo

O futebol brasileiro ganhou ontem um gigante, que atende pelo nome civil de Paulo Henrique e artisticamente é conhecido como Ganso. O paraense de 20 anos honrou a saga de Zito, Clodoaldo, Carlos Alberto Torres, outros líderes que já brilharam na Vila Belmiro, e foi o guia do Santos na conquista de mais um título paulista. Ele assumiu as rédeas do time nos momentos mais dramáticos da decisão com o Santo André e se impôs na base da habilidade, da personalidade e até de uma saudável e consciente rebeldia, ao se negar a ser substituído quase no fim do jogo. Mostrou maturidade e autoridade que muito marmanjo rodado não consegue acumular na carreira.
Eduardo Nicolau/AE
Eduardo Nicolau/AE
Ganso foi o principal jogador da decisão do Paulistão
Ganso foi a síntese da doação dos santistas que resistiram aos cartões vermelhos. E também o grande ponto de desequilíbrio em favor de sua equipe, dizimada pelo descontrole de alguns companheiros e pela necessidade exagerada de Salvio Spinola impor respeito no apito e disseminar broncas e expulsões.


Paulo Henrique Ganso foi decisivo do começo ao fim do capítulo de encerramento do Paulistão: no primeiro tempo, ao dar passe mágico para Neymar fazer o segundo gol - que, afinal, valeu a taça. Mas esteve soberbo na segunda etapa, ao perceber que o cansaço poderia consumir mais o Santos do que o atrevimento do rival. Então, prendeu a bola com inteligência, chamou faltas, cobrou escanteios a esmo e aparecia em todo canto, para preencher os espaços deixados pelas baixas de Léo, Marquinhos e Roberto Brum. Enfim, fez o tempo passar com picardia e transferiu a angústia para o outro lado, situações que só os craques sabem criar.
98801643, LatinContent/Getty 
Images /LatinContent Editorial
Ganso também ajudou a garantir o primeiro título paulista para Dorival Júnior. O treinador que pavimenta caminho para tornar-se, em breve, um dos destaques em sua profissão esteve a ponto de cometer pecado mortal. Salvou-o a santa e oportuna obstinação do jovem líder. Só quem antevê o jogo, como os fora-de-série, teria a petulância de Ganso, que fez gestos enfáticos de recusa para o técnico ao ver que Bruno Aguiar entraria em seu lugar para segurar placar adequadamente adverso.


Fosse um cabeça-de-bagre, a esta hora Ganso estaria a tirar suas tralhas do armário e já pronto para ir para o olho da rua. Pois, na relação de trabalho, quebrou a disciplina, deu um pontapé na hierarquia, ao peitar Dorival Júnior. Porém, a lucidez de quem já fez o gramado virar palco falou mais alto e driblou a catástrofe. Ao empacar feito burrico, agiu como anjo da guarda de time e treinador. Se o Ganso aceita passivamente a substituição, sai, o Santos toma o quarto gol e perde o título, Dorival é quem deveria passar hoje na Vila para se despedir.


Só falta agora aparecer um espírito de porco e alegar que o comportamento de Ganso foi exceção e não deve repetir-se. Ah, mas deve, sim, sempre que um jogador tiver moral para impedir que uma decisão insana ponha a pique uma campanha tão extraordinária quanto foi a do Santos no Estadual. É papel dos campeões quebrar regras.


O que está a pensar Dunga numa hora como esta? Com a experiência como jogador e agora como treinador, dá para ignorar o futebol de Ganso em favor de Josué, Kleberson, Gilberto Silva, Adriano, Felipe Melo, Júlio Baptista? Não há lugar para jovem veterano, capaz de suportar a pressão de uma final e levar um barco à deriva até porto seguro? Será que Paulo Henrique não tem o espírito guerreiro que tanto agrada ao comandante da seleção? As respostas estão com Dunga, que tem chance rara de mostrar-se arguto e com mente aberta.


A final mostrou que a geração 3 dos Meninos da Vila está a fazer história, com belas apresentações e títulos. Mas revelou também falhas. Fragilidade na defesa (como nos dois primeiros gols) é uma delas. E um tanto de nervosismo na hora do aperto. Noves fora isso, a decisão foi antológica, pelo primeiro tempo alucinante e pelos minutos derradeiros de tensão máxima. E ainda pela postura ousada do Santo André (que ontem, em ato falho, chamei de Azulão).Haja calmante e água com açúcar!


Imaginar que esse petrobras andou pelo Souza, e ninguem percebeu nada. Minha Tuna Luso segue chutando no rumo errado> 




Postar um comentário