28 novembro 2013

Tostão "Nilton Santos foi o maior jogador de defesa que vi no futebol brasileiro"

Via Folha de São Paulo / por Tostão
Sempre que me pedem para escalar a seleção mundial de todos os tempos, não tenho dúvidas sobre alguns jogadores, como Pelé, Garrincha, Messi, Maradona, Beckenbauer e Nilton Santos, a Enciclopédia do Futebol. Foi o maior jogador de defesa que vi no futebol brasileiro, no mesmo nível de Beckenbauer.
Nas Copas de 1958 e 1962, Nilton Santos era lateral. Marcava e apoiava, o que era raro na época. Ficou na história o famoso episódio do gol contra a Áustria, na Copa de 1958, quando Nilton Santos avançava, e o técnico Feola gritava para ele voltar até ele fazer o gol.
Nilton Santos gostava de dizer que não tinha nenhuma inveja da fortuna que os jogadores atuais ganham. A única inveja, completava, era a de não ter tido a liberdade para atacar, que têm hoje os laterais.
As partidas mais bonitas que vi foram as entre Santos e Botafogo, na década de 1960, mais espetaculares ainda que os clássicos atuais entre Real Madrid e Barcelona.
De um lado, Pelé, Coutinho, Zito e outros. Do outro, Garrincha, Didi, Nilton Santos e outros craques.
Na Copa de 1962, ficou famosa a esperteza de Nilton Santos, no jogo contra a Espanha. Os espanhóis ganhavam por 1 a 0, e Nilton Santos, ao perceber que o juiz poderia marcar um pênalti, cometido por ele, deu um passo à frente, ficou fora da área, onde o juiz marcou a falta. Concordo com Juca Kfouri, que a falta não existiu.
Com o tempo, mais velho, Nilton Santos passou a jogar de quarto-zagueiro. Nesta posição, acho que foi ainda melhor. Passou anos sem tocar nos atacantes. Antevia o passe, antecipava-se e saía com a bola, com um belo passe para iniciar o contra-ataque. É o que fazem os grandes zagueiros, como Baresi e Thiago Silva. Nilton Santos pensava o pensamento dos companheiros e dos adversários.
Em 1963, comecei a jogar no Cruzeiro. Em 1964, Nilton Santos parou de atuar. Não me lembro de ter jogado contra ele, mas me lembro de uma partida de fim de ano, nas férias, em que formamos um combinado de jogadores de Rio e Minas Gerais, para atuar em Manaus. Foi quando tive a chance de conversar com ele. Era uma pessoa doce, irônica e bem humorada.
Em 2005, Nilton Santos recebeu uma grande homenagem do Botafogo, que, dizem, lhe deu todo o apoio e à sua família nestes anos de doença. É o que deveriam fazer os clubes e a CBF com os ex-jogadores que necessitam de apoio psicológico e financeiro.
Nilton Santos foi desses craques que não olhavam para a bola. Jogava também com extrema elegância. Ainda em 2005, assumiu o cargo de consultor técnico do Botafogo, que não sei se exerceu na plenitude. No dia da posse, Nilton Santos chamou o jogador Josiel e lhe disse: "Meu filho, não dê carrinhos, não faça isso. Jogue de pé. É mais fácil".
Quando era adolescente, assisti, ao lado de meu pai, a um jogo do Botafogo contra o Atlético-MG, no estádio Independência. Para minha tristeza, Nilton Santos não ia jogar. Mas jogava Nilson Santos, seu irmão, que era fisicamente muito parecido e que atuava na mesma posição. Começou a partida, e disse a meu pai: "Esse não é o verdadeiro Nilton Santos"? Ele respondeu: "Parece com ele, mas não é ele". Mesmo assim, fiquei na dúvida. Ele jogava igual a Nilton Santos.
Veio uma bola pelo alto, Nilson Santos tentou dominá-la no peito. A bola correu, e o atacante fez o gol. Meus olhos e os de meu pai se cruzaram, e eu entendi a diferença entre a cópia e o verdadeiro, entre o que parece e o que é.
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