18 julho 2014

Alemanha: Porque é possível ser humano, profissional e vencedor ao mesmo tempo


Julio Gomes

Editor da BBC Brasil em São Paulo

20h15. Maracanã. Quando comecei a escrever essas mal traçadas linhas, duas horas e pouquinho após o final do jogo, Lukas Podolski surgiu no gramado com o filhinho. Havia ainda uns bons 500 alemães no estádio.
Podolskinho chuta a bola, que é quase do tamanho dele. Podolskão faz a defesa. E a torcida… vaia! Logo depois, logicamente, teve a selfie do tuiteiro mais carismático da Copa do Mundo. O bom humor alemão perdurou do início ao fim da Copa, espalhou-se do campo para fora dele, da Bahia para o país inteiro.
Podolski nasceu na Polônia, como Klose, o maior artilheiro da história das Copas. Khedira é de origem tunisiana. Ozil, de origem turca. Boateng, o primeiro negro campeão com a camisa alemã, é filho de pai ganês. Essa é a nova Alemanha, multicultural, um país que carregará o eterno peso por ter sido pivô de duas guerras devastadoras. Mas que não se esconde dos erros do passado e cria os filhos de forma a que nada parecido volte a acontecer.
Times de futebol multiculturais são melhores do que times com jogadores "iguais" (todos altos, todos baixos, todos fortes, todos assim, todos assado). O Brasil sempre teve essa vantagem. País multicultural na essência, aproveitou-se disso nos anos em que começou a construir a lenda que é, nas décadas de 50 e 60.
Hoje, não é só o Brasil que tem essa vantagem. Assim como não é mais só o Brasil o dono da alegria.
O que os jogadores alemães nos ensinaram nos últimos 30 e poucos dias é que é possível sorrir mesmo em momentos de tensão e concentração. Conciliar vida com trabalho. É possível ser humano e também profissional ao extremo. É possível que um time de futebol deixe sua marca fora do campo, e não apenas passe de passagem por um país ou uma vila. É possível que jogadores, verdadeiras estrelas dos nossos tempos, saiam da redoma em que são colocados para lembrar que, fora dela, existem pessoas de carne e osso. Que riem, choram, dançam, passam fome.
Eu não tenho dúvidas que os jogadores de futebol do Brasil ficariam felizes da vida se tivesse a chance de interagir, de saírem da redoma. Não foi o que aconteceu na África do Sul, um país tão parecido com o nosso. Não foi o que aconteceu nem no nosso. Se tivessem feito o que os alemães fizeram, seriam acusados por oportunistas de terem "perdido a Copa por isso".

Legado

Não se ganha uma Copa assim. Não se perde uma Copa assim. E, no fundo, o que importa? Será que ganhar ou perder uma Copa importa mais do que o legado humano que a seleção alemã deixa para as pessoas de Santa Cruz Cabrália?
Equipe alemã vence a Copa do Mundo no Brasil 'saindo da redoma'
O que a Alemanha faz e tem feito com seu futebol e seus profissionais de futebol precisa servir de inspiração para o Brasil. Em todos os sentidos. Obviamente em termos de organização, da estrutura do esporte, qualificação de profissionais, etc. Mas também no lado humano, de formação de pessoas e a relação delas com a sociedade.
Dito tudo isso, é sempre importante que projetos assim tenham sucesso. Ganhem, enfim. Para que a cabeça pequena que adora um resultado não relativize tudo.
Foi importante para o futebol que a Alemanha ganhasse a Copa do Mundo. Por tudo o que fez, por tudo o que vem fazendo e que já está sendo copiado lá na Europa.
Não tanto pelo jogo deste domingo, convenhamos. A Argentina fez um primeiro tempo primoroso. Perfeita taticamente, fez o básico até, o que o Brasil foi incapaz de fazer. Encheu de gente no meio de campo, juntou linhas e fechou espaços. Ajudou o fato de a Alemanha ter perdido Khedira logo antes da partida começar.
Quando recuperava a bola, a Argentina fazia uma transição alucinantemente rápida. A mesma que Felipão imaginou com Hulk e Bernard, pelos lados do campo. Só que para haver a transição rápida, e a estocada contra uma defesa que tem pouca velocidade, é necessário antes recuperar a posse. Isso, o Brasil não fez. A Argentina, muito mais evoluída taticamente, fez bem demais.
O gol que Higuaín perde, inaceitável em uma final de Copa do Mundo, teria sido a coroação de um primeiro tempo enorme, em que a Argentina, mesmo sem a bola, não foi ameaçada e muitas vezes ameaçou.

Lesão

A lesão de Kramer e consequente entrada de Schurrle ajudou a Alemanha. Ozil veio para o meio, Kroos, que não fez uma grande partida, recuou, e Schurrle passou a incomodar com sua profundidade. Aí sim, tivemos um segundo tempo bem mais equilibrado. Também porque Sabella errou ao tirar Lavezzi para botar Aguero, o que fez a Argentina perder consistência defensiva e velocidade para contra atacar.
Ainda assim, foi criada a chance com Palacio. Outro gol que não se pode perder. Com a lesão de Di María e Aguero baleado, foi impossível não pensar na falta que fez Tevez. Os gols perdidos por Higuaín e Palacio não teriam sido perdidos por ele. E, convenhamos, nem por Messi nem por Aguero, é que as bolas caíram nos pés errados.
A vitória da Alemanha na prorrogação não veio por acaso. Um time claramente mais inteiro fisicamente e que estava buscando, não queria pênaltis.
E o gol saiu dos pés de Gotze, um garoto genial, muito novo ainda e que agora, possivelmente, terá uma carreira decolando rumo à estratosfera.
Em 2010, Iniesta. Em 2014, Gotze. Jogadores com características diferentes, mas, em comum, têm o bom trato com a bola, extrema qualidade técnica e capacidade de criação e improvisação.
Iniesta e Gotze poderiam ser brasileiros. Se tivessem nascido 50 anos atrás. Hoje em dia, não formamos mais jogadores como estes dois. E não é por falta de sorte, não.
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