03 março 2013

Ao limite da ética


Por Cássio de Andrade / deu no blog do Gerson Nogueira
“A vida como bem supremo”. Com essa assertiva, a pensadora Hannah Arendt conclui um belo tratado acerca da condição humana na passagem do homo faber ao animal laborans contemporâneo. Penso nesse debate de Arendt, quando busco entender a irracionalidade proveniente da barbárie que envolveu a morte do jovem boliviano semana última.
Acreditei que os limites da indignação coletiva tivessem alçado à fronteira dos valores éticos e morais presentes na repulsa à violência e à exaltação impune da cultura da morte. Em pouco tempo, ruiu o castelo de areia da justiça e da boa vontade.
Após o assassinato do garoto boliviano, unem-se a mídia, o Corinthians, os corinthianos e todos os guardiões da barbárie para a construção de um fato: a invenção da culpa. A vida deixou de ser a bandeira da ética. Seu limite, a certeza da impunidade.
De qualquer forma, pequenas luzes brilham ante o universo do oportunismo e da inconformidade indigna. A punição ao Corinthians representou um pequeno passo à retomada da ética.
O que assusta não é a medida da punição que impunifica, mas da não punição exigida em nome da justiça, da equidade e dos valores das maltas. No território sem fronteira das redes sociais não há limite à contravenção, ao apoio ao menor convertido, à testemunha que zomba da dor. Ares insuspeitos se movimentam em areias insuspeitadas e na áspera cor laranja dos dentes brancos da menina-deboche, não nos faz pensar Serraut, nem os impressionistas. Surrealistas, talvez, contradizendo Veloso.
Ah, o Deus que pune dos antigos hebreus! Os demiurgos já seriam suficientes.
Estamos em março, o mês de José, de San Jose das altitudes, da modesta rede de homens de bens. Quem sabe, aponta Dêmocles sua flamejante arma aos incautos. E, assim, sonhamos, o bom senso volte a reinar, onde reine o império da lei no coração de timoneiros e náufragos.
Que Assim Seja!

Postar um comentário